Archive for Janeiro 2011

Marrocos (Parte V)

Seguimos devagar junto á costa. A paisagem é de cortar a respiração. A estrada serpenteia por entre pinhais, campos de cultivo, arribas, e praias. A actividade agrícola é intensa, passam burros com os alforges carregados de cenouras. Cada pedaço de terra onde não há rocha está aproveitado e as hortas prolongam-se até ás dunas. Surgem campos inteiros cobertos por umas estufas estranhas, só descobrimos mais tarde que servem para cultivo de bananeiras.

Paramos em Safi para almoçar. Peixe grelhado que partilhamos com um "convidado" interesseiro mas muito simpático, um Sr Gato. É uma cidade industrial onde imperam os fosfatos, existe um bairro inteiro onde se faz cerâmica de cores vivas e brilhantes. Os portugueses estiveram por ali somente entre 1508 e 1541, durante esse tempo construiram o forte monumental, uma catedral que nunca chegaram a terminar e expandiram a cidade de uma forma geral mas destruiram a maioria dos monumentos antes de partirem. A medina é pequena e cheia de vida, mas encontrar o caminho para as ruínas da Cathédrale Portugaise não é fácil, aparece o "guardião" da dita que nos mostra o caminho e "despeja" a história daquele local, e claro que no final temos de pagar a propina. Dá vontade de conheçer mais um pouco mas o objectivo é chegarmos a Oualidia.
 

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Marrocos (Parte IV)

Viagem lenta até Essaouira, muitos kms de estrada em obras que permitiram prestar mais atenção à envolvente. Passa-se pela priveligiada região onde se produz o famoso óleo de Argão, usado para a cosmética, culinária e afins. É produzido de forma artesanal pelas mulheres Berberes, a partir das bolotas de uma espinhosa. Existem ao longo da estrada muitas cooperativas que o comercializam sob o principio do comércio justo.

Foi chamada Mogador pelos portugueses e usada como um importante entreposto militar no séc.XV. Visível da costa, a ilha de Mogador é actualmente um santuário de falcões. As suas muralhas impressionam e são património da UNESCO, o porto de pesca é de uma agitação constante, milhares de gaivotas esvoaçam por cima das nossas cabeças e a probabilidade de sermos atingidos por um "projéctil" é enorme. Apesar de Essaouira ser conhecida pelos ventos constantes, curiosamente não faz vento, está calor e assistimos a uns finais de dia com uma luz linda. Ficamos numa casa particular que tem um terraço sobre as muralhas e uma vista espantosa para o mar. 

Os trabalhos em madeira são o artesanato típico e o peixe é rei na cozinha. Numa barraquinha perto do porto escolhe-se o peixe que se quer comer, vai a grelhar e vem para a mesa simplesmente com uma salada de tomate, uma delícia. Experimentei também a Pastilla Marroquina, um recheio agridoce de carne, amêndoas, ovo e especiarias envolvido numa massa folhada muito fina, polvilhada de açúcar em pó e canela acompanhada por música marroquina ao vivo, muito bom.


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Marrocos (Parte III)

Viagem fácil por autoestrada para Marrakech. Ao longe vislumbra-se o Atlas coberto de neve. A paisagem vai mudando gradualmente, o verde dá lugar a solo argiloso de cor alaranjada. Um olhar mais atento revela aldeias perdidas no meio do nada, camufladas pela cor da terra. O clima já é desértico, arrefece abruptamente à medida que a noite se aproxima. Os aeroportos fechados na Europa devido à neve fizeram com que muitas reservas tivessem sido canceladas. Sorte a nossa. Um tagine de carne e legumes aconchega o estômago e é hora de descansar.

A Jemaa el Fna fervilha de gente a qualquer hora do dia. Os aguadeiros, os encantadores de serpentes, homens com macacos acorrentados à espera que alguém queira tirar uma foto, grupos que representam peças de teatro, jogos, contadores de histórias milenares que infelizmente são contadas em árabe. Tentamos absorver, registar tudo, missão impossível. Durante o dia há bancas de sumo de laranja, outras de frutos secos. À noite surgem do nada as bancas da comida. Tagine, couscous, peixe, brochetes, sopa marroquina, caracóis (os marroquinos bebem o caldo)... a lista não acaba. Os cheiros misturam-se no ar e há gente por todo o lado.
Houve nos últimos anos um investimento muito grande a favor do turismo, está tudo muito cuidado e arranjado.

Fica-se rendido pela aparência e sabor da pâtisserie onde os ingredientes passam pelos frutos secos, água de rosas, mel. Nuvens de abelhas rodeiam todos os locais de venda, sinal que são mesmo docinhos.
Perdemo-nos na Medina gigante e nos Souks tradicionais. As pessoas aqui são, de uma forma geral mais acessíveis, mais abertas. Chateiam, mas um La Shukran (não, obrigado) é suficiente para desistirem Muitos não se deixam fotografar, alguns chegam a pedir dinheiro pela foto senão querem que se apague. O único incomodo é o buzinar e as tangentes constantes das motoretas e bicicletes nas ruas estreitas e cheias de gente.

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Marrocos (Parte II)

Chegamos a Casablanca já de noite. Apanhamos hora de ponta, muita confusão no trânsito e o facto de termos de estar "com um olho no burro, outro no cigano e nos primos todos", desgasta qualquer um, isto para dizer que era o caos total, com a agravante de os marroquinos gostarem muito de conduzir ao centro e não na sua faixa de rodagem.
É uma cidade gigantesca, chegar ao centro até foi fácil, o difícil foi encontrar o hotel. Depois de muitas voltas aos quarteirões, quase em desespero lá encontramos o dito hotel que afinal estava mal localizado no mapa. A desesperar por um descanso deparamo-nos com um "complète". Caramba que azar. Afinal na rua ao lado havia mais alguns. Bingo. 

O amanheçer trouxe o sol, com o sol veio a descoberta de que Casablanca não é uma cidade bonita, é demasiado ocidental, mas um ocidental desleixado. A arquitectura colonial foi a única coisa que impressinou. Edifícios imponentes que não escondem o passar dos tempos, muitos deles devolutos.
Embrenhamo-nos na Medina, nos Souks (mercados), locais onde praticamente não vagueiam turistas e onde é possível encontrar ainda a essência dos marroquinos comuns. O turismo aqui é diferente, turismo de luxo, de bares, de night clubs. Apesar de não ser a capital administrativa, é a capital económica de Marrocos. Sente-se mais as diferenças sociais entre os habitantes e os contrastes são brutais. Os marroquinos mais abastados são arrogantes e antipáticos, tipo "rei na barriga" e tratam muito mal quem lhes presta serviços.
Persistem por aqui cafés frequentados só por homens que bebem o seu "café au lait" ou "thé à la menthe" sentados em fila, todos virados para a rua. Passar em frente é como andar numa passerelle, sentem-se os olhares a seguir-nos, se uma mulher entra é olhada de lado com desaprovação. A nova geração já se mistura, convive, e a internet é um veículo para muitas conversações e namoricos. Casablanca não vai deixar saudades.


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Marrocos (Parte I)


Marrocos tem aquela magia que agarra, encanta, faz querer voltar. Quisemos voltar cinco anos depois, para percorrer outras rotas, conhecer mais, saber mais, sentir mais.
O cheiro, o colorido, a forma de estar e de ser das gentes, em tudo diferente à nossa, causada principalmente pela presença islâmica que por estas paragens não é fundamentalista salvo algumas excepções, claro, são factos por si só tão estranhos e tão diferentes à nossa forma ocidental de pensar e estar, que nos fazem sentir mais profundamente todas as diferenças, a começar por mim mulher, “la gazelle” para os marroquinos, sem opinião, sem poder de decisão. Custa ver as cabeças femininas escondidas e cabisbaixas, os olhares fugidios, a dificuldade do sorriso. Os tempos são no entanto de mudança, as mulheres de Marrocos têm conquistado a pouco e pouco, terreno no activo do país e da própria família.
Partimos de madrugada sem nada reservado, como sempre, só com uma ideia do percurso a fazer em 15 dias de férias. Na mala, o guia de viagem sempre imprescindível, na mão o volante. Fomos de carro, a melhor forma e a mais económica de ir até Marrocos. Ferry de Tarifa para Tânger e um surpreendente pouco tempo de espera para passar a fronteira do lado de lá.
Já em Tânger, surge a primeira alteração à rota. Em vez de seguirmos ao longo da costa Atlântica, quisemos rever a vila azul, Chefchaouen, aconchegada nas encostas escarpadas do Rif, por quem nos encantamos. Correu mal. Esquecemos o clima montanhoso agreste, chuva e trovoada. De cada vez que saímos do hotel apanhámos umas molhas monumentais. A sensação é que Chefchaouen não tem o mesmo encanto, a mesma calma, já não é um oásis azul. Com a vinda cada vez mais frequente de turistas surgem outros aspectos, que sendo em parte inofensivos acabam por irritar pela insistência: Parque? Hotel? Restaurante? Haxixe? Até os lojistas estão um bocado chatos. Reconfortou o jantar no Restaurante Chefchaouen com a simpatia do Mustafá que nos pediu cervejas sem álcool ou uma camisola do Benfica para quando voltarmos a Chef. 
Sem condições para andar a deambular pela bela Medina, partimos no dia seguinte à procura de sol e temperaturas mais amenas. Seguimos em direcção a Casablanca. A viagem foi difícil porque a chuva decidiu acompanhar-nos. Os rios corriam ferozmente levando taludes, árvores e pedras, partes da estrada tinham deslizado mas surpreendentemente estava tudo a ser arranjado, obras por todo o lado. Os terrenos agrícolas alagados faziam a estrada parecer uma ilha, e os marroquinos são loucos a conduzir, sem a mínima noção de civismo mesmo nas auto-estradas. As fotos antigas estão aqui. Estas são uma antevisão de todos os locais por onde passamos.

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